17 de agosto de 2018

Palestrante da 75ª Soea, Clóvis de Barros Filho, faz uma introdução do tema que abordará no evento.

Palestrante com vasta experiência nacional e internacional, Clóvis de Barros Filho é professor Livre-Docente pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e Consultor em Ética da Unesco. Colunista de Ética da Revista Filosofia Ciência & Vida e professor da Casa do Saber, em São Paulo, ele participa do mundo corporativo desde 2005, quando criou também o Espaço Ética. Atualmente, o autor de “Ética na Comunicação” (Moderna, 1995) está lançando o livro “Shinsetzu – O Poder da Gentileza” (Planeta), em que promove, em forma de romance, um diálogo entre a cultura japonesa e a visão de mundo ocidental. A seguir, Clóvis de Barros Filho nos fala sobre o papel da Ética no cotidiano atual, antecipando um pouco da sua palestra-magna na abertura da Soea, cujo tema é exatamente “Engenharia e Ética na Reconstrução do Brasil”.

 

Confea – O senhor é autor de um dos livros mais importantes relacionados à ética no jornalismo, embora não seja uma obra estritamente deontológica. Qual seria então a importância da ética jornalística para os demais universos profissionais e de convivência?

 

Clóvis de Barros Filho – O jornalismo na sua atividade afeta, querendo ou não, toda a sociedade. Ajuda a definir a agenda pública, classifica os temas e as notícias consideradas importantes, dá valor a umas palavras e desvaloriza outras. Se o jornalismo como um todo for incapaz de pensar sobre a sua própria atividade, fica à mercê de interesses difusos e a sociedade inteira perde.

 

Confea – Hoje, a ética é vista por muitos como um exercício de autoajuda, em um misto de Filosofia, Psicologia e religiosidade, muitas vezes de caracteres duvidosos. É possível torná-la mais natural em nosso dia-a-dia, como um exercício moral compartilhado? A construção de uma conduta ética na sociedade atual depende principalmente de quê?

 

Clóvis de Barros Filho – Tudo que é formuláico é antiético. Isso porque a ética é a própria reflexão desembaraçada. O caminho mais simples e fácil de inserir a ética no cotidiano é livrar-se de tudo que é predeterminado. Nesse sentido, ética não poderia estar mais longe de autoajuda.

 

Confea – No vídeo “Como enfrentar os canalhas”, da Casa do Saber, com mais de 300 mil visualizações no Youtube, o senhor critica a sociedade individualista, “canalha”, considerando que a “ética é a vitória da convivência sobre a canalhice, a vitória do interesse público sobre interesses privados que pretendem comprometê-lo”. Diante de tantos exemplos de corrupção moral e social, inclusive dos movimentos pretensamente libertários da juventude, exercer com dignidade uma profissão se torna mais desafiante? Diante de tantas “canalhices”, a solução política é apenas um paliativo?

 

Clóvis de Barros Filho – Fora da política, apenas a barbárie. Negar a política é prevalecer a canalhice sobre o interesse geral. Agora, não é solução mágica. Através dela consolidam-se diversas outras mudanças sociais fundamentais para o combate à canalhice.

 

Confea – O Sistema Confea/Crea valoriza a condição ética de seus profissionais, considerando o caráter social das atividades regidas pela Lei nº 5194/1966. No entanto, verificamos recentemente uma série de indicações de que a ética está sendo desprezada por uma parcela pequena destes profissionais, mas que acaba prejudicando a imagem de milhares de outros profissionais que atuam dignamente. E muitos podem se perguntar, inclusive diante de um país que promove tão poucas políticas de Estado em favor do desenvolvimento: vale a pena tanto esforço, como valorizar legitimamente essas atividades?

 

Clóvis de Barros Filho – Que a canalhice afete o todo não é novidade. É de sua própria natureza. É justamente o triunfo do interesse individual, prejudicando o coletivo. Então, não me estranha o fato relatado. Agora, esmorecer diante da canalhice é selar o trágico destino: a destruição total e completa da atividade profissional. A vida é uma constante luta da retidão contra a canalhice.

 

Confea – A ética também é “um exercício da inteligência compartilhada que busca o aperfeiçoamento da convivência. Uma inteligência viva em busca de soluções”. O senhor fala em “soluções para conviver, diante de novas situações”, considerando que a ética não possui “uma tabela pronta”, maniqueísta, diante de problemas inimagináveis, dinâmicos. Aparentemente, uma conduta próxima a de profissionais da Engenharia, da Agronomia e das Geociências, diante de seus constantes desafios. Supondo que essa relação seja possível, qual a importância de preservá-la e difundi-la junto a estes profissionais?

 

Clóvis de Barros Filho – Importância total. Sem reflexão, sem ética, tudo rui. Problemas da vida e da ciência exigem uma postura altiva. Problemas novos requerem soluções novas. Não importa quem sejamos e onde trabalhamos.

 

Fonte e foto: Confea

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