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Acesso em 27/09/2022 às 05h58.

ARTIGO DO PRESIDENTE DO CREA-RN SOBRE O PROJETO DA COPA 2014

22 de junho de 2009, às 5h16 - Tempo de leitura aproximado: 4 minutos

Pela importância e oportunidade do tema abordado (a escolha de Natal para sub-sediar a Copa do Mundo de 2014 e a construção de novo estádio mediante a demolição do Machadão, juntamente com outros imóveis do patrimônio público), a coluna abre espaço para a publicação de artigo assinado pelo engenheiro civil Adalberto Pessoa de Carvalho, ex-secretário estadual de Infraestrutura e atual presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio Grande do Norte. (Marcos Aurélio de Sá – colunista do Jornal de Hoje)

O que existe é uma representação gráfica. agora, vamos começar a discutir o projeto.

Adalberto Pessoa de Carvalho

Presidente do Crea-RN

Palco principal da Copa do Mundo de 1954, o Maracanã foi uma obra marcante do Século XX no Brasil. Naquele tempo não tínhamos a economia globalizada, nem os detalhes atuais da política de ocupação do solo, e o projeto foi rapidamente executado.

O RN está unido em prol do mesmo evento como uma antecipação de investimentos importantes para o Estado. No entanto, a empolgação que nos acolhe nos põe em alerta. O cenário exibe as paixões extrapoladas, a acentuação dos discursos e dos comprometimentos políticos. E, ao fundo, os caçadores de pessimistas em prontidão.

O perigo está aí: nesse clima de pé de guerra, quando o campo de batalha não tem dono e os rigores das Leis do uso do solo e do meio ambiente imperam.

A quem cabe implantar as obras é preciso precaução para aceitar as críticas, os questionamentos, encaminhar respostas, discutir propostas, ouvir recomendações, esquecer o centralismo das gestões, e eleger o debate claro e rápido para erguer as obras, ordenar o trânsito, conduzir as águas, definir acessos, justificar a transferência do solo, definir a posse da terra e, finalmente, identificar o desafio em todas as suas dimensões. Afinal seria desatino de qualquer filho da terra ser contrário à Copa do Mundo em Natal. O que devemos é discutir como fazer.

Ao ser escolhida para sediar a Copa de 2014, Natal acordou como se o ABC e o América fossem disputar a final.

Perfeitamente normal. Os desempregados já fazem planos para as novas vagas de trabalho; prestadores de serviço vislumbram novas atividades; vendedores de sonho estão em alerta; investidores preparam maquinas de multiplicar capital; gestores públicos montam suas estratégias e os empreiteiros afiam suas ferramentas preparando seus acervos. Tudo vai girar nestes cinco anos, transformando o cenário.

Por enquanto, é proibido falar no transtorno. E este é feroz para quem tem tanta pressa, porque flui das interpretações da política fiscal e patrimonial, da adequação do uso do solo, do controle dos serviços públicos e da opinião popular.

Mexer no patrimônio público aguça a sintonia dos guardiões da Lei, desde o tempo da construção do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, quando o Procurador Geral da República, em 1930, arguiu inconstitucionalidade pelo uso de recursos públicos, baseado no preceito de separação da Igreja e do Estado. Imaginem só, em plena era pré-revolucionaria que levou Vargas ao estrelato, o Procurador Geral do restinho da República arguiu a Lei. Portanto, não é de hoje que o Ministério Público se preocupa com o cumprimento da Lei e quer explicações para os grandes investimentos.

Alguns afoitos podem dizer que a hora de questionar o projeto já passou. Mas não passou porque, até agora, não existe projeto. O que existe é só uma representação gráfica do que será o projeto, e a deliberação de uma minoria de ocupar uma área questionável, que envolve a maior demolição de patrimônio publico de que já tivemos noticia. É necessário explicar que um projeto é fruto do somatório de inúmeros detalhes, a começar sobre a validade da área a receber os investimentos.

Como sempre, os prazos foram mínimos para que fossem apresentadas as propostas. Cinqüenta anos em cinco construiu uma modernidade mundial, em termos de urbanismo e arquitetura, mas o uso inadequado transformou Brasília num caos da acessibilidade, antes mesmo de sua população se instalar na terceira idade.

O que se pensa, por exemplo, para o fluxo de veículos com duas únicas vias de penetração e distribuição de tráfegos na entrada da cidade? Ou se os Planos Diretores de Drenagem e Esgotamento Sanitário estarão prontos, e suas obras em funcionamento esgotando as chuvas de junho de 2014? O que nos preocupa são estes desafios, numa área que funciona como fundo de bacia da Candelária, parte do Campus Universitário, da Potilândia e Lagoa Nova. Não passa por nossa análise apenas o fato de demolir áreas públicas. Um dos reflexos dessa pressa? O terreno escolhido, influenciado por rápido sobrevoo sobre a cidade, sem contribuição dos detalhamentos da ocupação real deste solo.

O CREA vai fazer seu papel. Vai convidar todos os vetores envolvidos para discutir a melhor maneira de usar os investimentos na nossa cidade. Esta será a colaboração temporal do Conselho que congrega Engenheiros, Geólogos, Arquitetos, Geógrafos, Agrônomos, Metereologistas, Tecnólogos e Técnicos afins, que não foram tempestivamente consultados, ou ouvidos.